Eu lembro de como é estranho estudar Psicologia durante anos e, mesmo assim, chegar diante de um paciente e pensar:
“E agora?”
Você estudou.
Leu livros.
Fez provas.
Aprendeu conceitos.
Conhece sua abordagem.
Talvez até tenha feito cursos por fora.
Mas chega a sessão e o paciente fala alguma coisa inesperada.
E, de repente, toda aquela segurança que existia na teoria parece desaparecer.
Você pensa:
“Será que eu deveria perguntar alguma coisa?”
“Será que essa intervenção faz sentido?”
“Estou conduzindo isso direito?”
“E se eu estiver deixando passar alguma coisa importante?”
“E se eu estiver prejudicando esse paciente?”
Se você já saiu de uma sessão e ficou reconstruindo mentalmente cada frase que disse, eu quero começar te dizendo uma coisa:
isso não significa necessariamente que você não sabe Psicologia.
Muitas vezes, significa que você ainda não aprendeu a transformar conhecimento em decisão clínica.
Essa é uma das coisas que mais me chamam atenção quando converso com psicólogos no início da prática.
Existe conhecimento.
O problema aparece quando esse conhecimento precisa virar ação.
Porque saber o que é ansiedade é uma coisa.
Estar diante de uma paciente ansiosa, compreender o que está acontecendo naquela sessão, decidir o que investigar, escolher uma intervenção e perceber como ela respondeu é outra completamente diferente.
E essa diferença pode ser assustadora.
Principalmente para quem acredita que um bom psicólogo deveria entrar na sessão sabendo exatamente o que fazer.
Eu não acredito nisso.
Na verdade, acho que essa expectativa é uma das coisas que mais alimentam a insegurança clínica.
Existe uma fantasia silenciosa sobre ser psicólogo.
A ideia de que o profissional precisa saber o que está acontecendo o tempo inteiro.
Como se o paciente trouxesse um problema e o psicólogo precisasse imediatamente saber:
qual pergunta fazer,
qual técnica utilizar,
qual hipótese levantar,
qual intervenção escolher
e para onde levar aquela sessão.
Só que a prática clínica não funciona dessa maneira tão organizada.
Existe raciocínio.
Existe avaliação.
Existe construção de hipótese.
Existe dúvida.
Existe necessidade de rever o que aconteceu.
E, principalmente, existe aprendizado.
O problema não é ter dúvidas.
O problema é não ter um caminho para lidar com elas.
Porque quando não existe esse caminho, qualquer dúvida vira pânico.
E o pânico vira travamento.
Eu sei que essa frase pode incomodar.
Principalmente porque, quando estamos inseguros, estudar parece a solução mais óbvia.
“Vou fazer mais um curso.”
“Vou ler mais um livro.”
“Vou estudar mais sobre essa abordagem.”
“Quando eu souber mais, vou me sentir preparado.”
Só que existe uma armadilha aí.
Você pode passar anos acumulando conhecimento e continuar pensando:
“Mas o que eu faço com isso dentro da sessão?”
Porque informação não necessariamente produz clareza.
Às vezes, produz ainda mais possibilidades.
Você conhece cinco técnicas.
Lembra de três conceitos.
Tem quatro hipóteses.
E agora precisa decidir o que fazer.
A insegurança aumenta.
Por isso, em muitos momentos, o que falta não é mais conteúdo.
É direção prática.
Imagine uma sessão.
O paciente termina de falar.
Silêncio.
Você sabe que precisa responder alguma coisa.
Mas começa a pensar em várias possibilidades ao mesmo tempo.
“Pergunto sobre isso?”
“Volto para o que ele falou antes?”
“Faço uma intervenção?”
“Deixo ele continuar?”
“Será que estou interrompendo?”
Enquanto você tenta escolher a resposta perfeita, a sessão continua.
E quanto mais você procura a intervenção perfeita, mais difícil fica encontrar qualquer intervenção.
É aí que o “me conta mais” aparece.
Não porque você necessariamente não sabe o que está fazendo.
Às vezes, você está apenas tentando ganhar alguns segundos para organizar o raciocínio.
E eu não digo isso para te julgar.
Muito pelo contrário.
Eu digo porque acredito que existe uma diferença enorme entre ser incompetente e ainda não ter desenvolvido segurança para tomar decisões clínicas.
Para mim, segurança clínica não é entrar na sessão pensando:
“Eu sei exatamente tudo o que vai acontecer.”
Isso seria impossível.
Segurança é conseguir pensar:
“Eu não sei exatamente onde essa sessão vai chegar, mas sei como observar, investigar, formular hipóteses e decidir meu próximo passo.”
Percebe a diferença?
Você não precisa controlar o paciente.
Precisa conseguir conduzir o processo.
E isso é algo que pode ser desenvolvido.
Primeiro: não transforme a dúvida em uma sentença sobre sua capacidade.
“Eu não sei o que fazer agora” é diferente de:
“Eu sou um péssimo psicólogo.”
Segundo: volte para o que está acontecendo na sessão.
O que o paciente acabou de trazer?
O que parece importante nisso?
O que você ainda não compreendeu?
O que mudou emocionalmente enquanto ele falava?
Que informação está faltando?
Qual seria o próximo pequeno passo para compreender melhor aquela situação?
Essas perguntas são muito mais úteis do que tentar encontrar imediatamente a intervenção perfeita.
Porque clínica não é um concurso para ver quem encontra a resposta mais inteligente.
É um processo de construção.
Existe uma diferença entre alguém simplesmente dizer:
“Você está indo bem.”
E alguém olhar para uma situação clínica com você e perguntar:
“Por que você escolheu essa intervenção?”
“O que você percebeu nesse momento?”
“O que você poderia ter investigado antes?”
“O que essa fala do paciente muda na sua hipótese?”
“Qual seria uma outra possibilidade de condução?”
Esse tipo de feedback desenvolve algo muito importante:
raciocínio clínico.
Você começa a entender não apenas o que fazer, mas por que fazer.
E, aos poucos, aquilo que antes parecia improviso começa a se transformar em processo.
Talvez você esteja justamente naquela fase desconfortável entre saber bastante e ainda não confiar completamente na própria capacidade de aplicar.
Essa fase é difícil.
Eu sei.
Porque existe uma distância dolorosa entre:
“Eu sei isso.”
e
“Eu consigo fazer isso.”
Mas essa distância pode ser atravessada.
Não necessariamente acumulando mais e mais teoria.
Às vezes, sendo acompanhado na prática.
Recebendo feedback.
Aprendendo a pensar sobre os casos.
Entendendo o que observar.
Aprendendo a transformar conhecimento em decisão.
E, principalmente, percebendo que você não precisa descobrir tudo sozinho.
Se você termina uma sessão pensando “será que eu fiz certo?”, talvez essa pergunta não precise ser motivo de vergonha.
Pode ser o começo de uma pergunta muito melhor:
“O que eu posso aprender com o que aconteceu nessa sessão?”
É aí que a insegurança começa a deixar de ser apenas um peso.
E começa a virar desenvolvimento profissional.