Eu conheço esse pensamento:
“Acho que ainda preciso estudar mais antes de me sentir preparado.”
Você termina a faculdade.
Começa a pensar em atender.
Mas aí surge aquela sensação desconfortável:
“Eu ainda não sei o suficiente.”
Então você decide fazer mais um curso.
Depois outro.
Compra um livro.
Salva alguns artigos.
Assiste algumas aulas.
Estuda uma nova técnica.
E, por alguns dias, sente que está avançando.
Até chegar novamente a pergunta:
“Mas será que agora eu estou preparado?”
E talvez essa seja uma das armadilhas mais silenciosas do início da carreira clínica.
Porque estudar é importante.
Muito importante.
Mas existe um momento em que o problema deixa de ser falta de conhecimento.
E passa a ser falta de aplicação guiada.
Essa diferença parece óbvia quando falamos sobre ela.
Mas, na prática, é fácil confundir.
Você pode saber explicar um conceito perfeitamente.
Pode conhecer a teoria.
Pode lembrar dos critérios diagnósticos.
Pode saber quais são determinadas técnicas.
Mas então um paciente senta na sua frente e diz algo que não estava no roteiro.
E você precisa decidir:
O que é importante aqui?
O que preciso investigar?
Qual informação está faltando?
O que essa fala significa dentro desse caso?
Devo aprofundar?
Devo mudar de direção?
Devo fazer uma intervenção agora ou continuar explorando?
Nenhum livro consegue prever exatamente essa sessão.
Porque você não está apenas recuperando informação.
Está tomando decisões.
Quando um psicólogo diz:
“Eu ainda não estou seguro.”
A resposta costuma ser:
“Então estude mais.”
Mas imagine que esse psicólogo já esteja estudando.
Ele conhece a teoria.
Lê bastante.
Faz cursos.
Mesmo assim, continua saindo das sessões pensando:
“Eu não sei se conduzi isso direito.”
Nesse caso, mandar estudar ainda mais pode não resolver o problema central.
Porque talvez o que ele esteja procurando não seja mais informação.
Talvez esteja procurando clareza.
Clareza sobre como transformar o que sabe em ação.
É na prática que algumas lacunas aparecem.
Você percebe que determinada situação que parecia simples na teoria é muito mais complexa na sessão.
Percebe que existem informações que não tinha considerado.
Percebe que uma intervenção pode fazer sentido em determinada situação e não em outra.
Percebe que o timing importa.
Que a forma como você pergunta importa.
Que uma mesma pergunta pode produzir respostas muito diferentes dependendo do contexto.
E é justamente por isso que a prática precisa ser acompanhada de reflexão.
Porque fazer muitas sessões não garante, sozinho, que você está aprendendo a conduzi-las melhor.
Você pode repetir o mesmo padrão por meses.
E continuar inseguro.
Essa é uma coisa que eu gostaria que mais psicólogos soubessem.
Existe uma diferença entre:
“Eu já fiz muitas sessões.”
e
“Eu aprendi com as sessões que fiz.”
A experiência se torna realmente formativa quando você consegue olhar para o que aconteceu.
O que funcionou?
O que não funcionou?
Onde eu travei?
O que eu não percebi?
Que outra possibilidade de condução existia?
O que eu faria diferente hoje?
É nesse processo que você começa a desenvolver repertório clínico.
Eu não vejo supervisão como um lugar para alguém simplesmente dizer o que você deve fazer.
Para mim, uma boa supervisão deveria ajudar você a pensar melhor.
Você leva um caso.
Conta o que aconteceu.
Expõe suas dúvidas.
E começa a enxergar coisas que, sozinho, talvez não conseguisse perceber.
Não para receber uma resposta pronta.
Mas para entender o raciocínio por trás daquela resposta.
“Por que essa pergunta seria importante?”
“Por que essa intervenção faria sentido nesse momento?”
“O que você percebeu nessa fala?”
“O que pode estar mantendo esse padrão?”
“Que informação ainda está faltando?”
Esse processo começa a mudar a maneira como você olha para seus próprios atendimentos.
Eu acho que essa é uma das maiores transformações que acontecem.
Antes:
“Meu paciente falou isso e eu não sei o que fazer.”
Depois:
“Ele trouxe isso. Eu tenho algumas hipóteses. Ainda preciso investigar determinado ponto. Então, por enquanto, meu próximo passo é esse.”
Perceba:
A dúvida não necessariamente desapareceu.
Mas ela deixou de ser caos.
Agora existe um caminho.
E isso muda completamente a experiência de estar dentro de uma sessão.
Existe um conselho muito comum para psicólogos inseguros:
“Confia no seu feeling.”
Eu entendo a intenção.
Mas, para quem ainda está começando, isso pode ser angustiante.
Porque a pessoa pensa:
“Mas eu não confio nem no meu feeling!”
E talvez ela não precise confiar cegamente nele.
Precisa desenvolver repertório para observar, formular hipóteses e decidir.
A intuição profissional também é construída.
Ela não aparece magicamente porque você recebeu o diploma.
Ela vai sendo formada pela combinação de conhecimento, prática, reflexão, supervisão e experiência.
Essa é uma crença difícil de abandonar.
“Quando eu estiver preparado, vou me sentir seguro.”
Só que, muitas vezes, acontece o contrário.
Você começa a desenvolver segurança à medida que:
atende,
reflete,
recebe feedback,
corrige,
estuda o que apareceu na prática,
supervisiona,
e atende novamente.
Ou seja:
segurança não é necessariamente o ponto de partida.
Ela também é resultado do processo.
Muito pelo contrário.
Estudo e supervisão não competem.
Eles cumprem funções diferentes.
O estudo amplia seu conhecimento.
A prática coloca esse conhecimento diante da realidade.
A supervisão ajuda você a pensar sobre o que está fazendo.
E essa combinação é muito mais poderosa do que acreditar que existe um momento mágico em que você finalmente terá estudado o suficiente.
Porque, sinceramente?
Talvez esse momento nunca chegue.
Sempre haverá algo novo para aprender.
Sempre haverá um caso diferente.
Sempre haverá uma situação que fará você pensar.
E isso não significa que você é um profissional ruim.
Significa que a clínica é complexa.
Talvez sua próxima etapa de desenvolvimento não seja acumular mais uma pilha de conteúdos.
Talvez seja aprender a transformar aquilo que você já sabe em decisões clínicas mais claras.
Aprender a olhar para um caso.
Organizar o raciocínio.
Identificar o que importa.
Saber o que investigar.
Entender quando intervir.
E, principalmente, ter um espaço seguro para perguntar:
“Eu pensei em conduzir dessa forma. Faz sentido? O que eu não estou enxergando?”
Não existe vergonha nisso.
Na verdade, eu considero essa disposição uma parte importante da construção de um profissional responsável.
Você não precisa crescer sozinho.
E não precisa passar anos acreditando que a insegurança é simplesmente o preço obrigatório de ser um psicólogo iniciante.
Talvez o que esteja faltando não seja mais teoria.
Talvez seja alguém que ajude você a transformar teoria em prática.
Porque entender é importante.
Mas, dentro da sessão, chega uma hora em que você precisa saber:
“E agora, o que eu faço?”
É exatamente aí que a prática começa a se tornar clínica.